Conselhos para ESCREVER História
Rio de Janeiro, julho de 2008.
1. Escreva para informar ao leitor. Longe de ser um solilóquio onanista, um texto de História consiste numa peça discursiva que comunica e transmite aos leitores um conjunto integrado de informações históricas e historiográficas atualizadas sobre determinado aspecto de algum fenômeno da realidade histórica.
2. Escreva para encantar ao leitor. Para nós, historiadores, escrever bem é um dever profissional. Além de observar as regras da correção gramatical e ortográfica, o texto de História deve encantar ao leitor concedendo-lhe horas alegres de esclarecimento, inteligência e cultura.
3. Escreva para se fazer entender. Acredite: erudição não se confunde com exibicionismos teóricos ou conceituais tolos e nem tampouco se expressa pelo emprego afetado dos modismos intelectuais. Peloamordedeus! Esqueça os jargões e as elucubrações esnobes e não use os conceitos apenas em razão de seus belos (mas inócuos) efeitos sonoros. Escreva com simplicidade.
4. Ao contrário dos poetas ou filósofos, os historiadores não têm licença para descrever o mundo sem abonar as suas observações. Nada, eu vou repetir: ABSOLUTAMENTE NADA do que escrevemos sobre a realidade histórica resulta de impressões livres, espontâneas ou idiossincráticas. Sem margem para exceção, a narrativa histórica deve necessariamente basear-se em pesquisa de fontes primárias e secundárias — que se apresentarão ao longo do texto, organizadamente, através de paráfrases, citações ou de simples referências, para validar e testemunhar os argumentos e conjecturas do historiador.
5. A originalidade de uma narrativa sobre o passado reside no modo atual e criativo de o historiador dispor e explorar o corpus de informações históricas e historiográficas já conhecidas e consolidadas pelo imaginário e tradição de uma cultura histórica. O estudioso inovador não é aquele que simplesmente descobriu fontes primárias virgens. Tampouco é o sujeito vaidoso que se presume pioneiro no estudo de um assunto nunca dantes conhecido. Pioneirismo e originalidade não se medem em função do que desconhecemos. Muito pelo contrário, pois o leitor só saberá aquilatar o valor da novidade em contraste com o que já é patrimônio comum e conhecido da tradição. Por isso: escreva História para honrar & superar os esforços da tradição historiográfica, prestando-lhe contas e, portanto, homenagens.
6. É um equívoco supor que os historiadores fazem citações simplesmente para evocar argumentos de autoridade irrefutáveis. Quando resgatamos as personagens históricas ou visitamos outros autores que já estudaram o tema que investigamos, trazendo todas essas vozes para o nosso texto, não queremos acabar com o diálogo sobre o passado dando a “última palavra”. Diferentemente dos advogados, que evocam suas testemunhas para encerrar o caso, os historiadores recorrem às suas fontes para oferecer aos leitores do presente uma espécie de concerto polifônico composto pela multiplicidade de perspectivas sobre o / do passado. Dessa forma, a escrita sobre o passado se a-presenta como um enredo que, a partir de um foco bem definido, integra uma multiplicidade de percepções sobre algum fenômeno da realidade histórica. As paráfrases ou citações constituem essa intrincada rede de visões de mundo cujas metamorfoses revelam a historicidade, a transitoriedade e o enraizamento mundano dos nossos conhecimentos sobre o passado.
7. Ao mobilizar o testemunho das fontes, não faça uma barafunda entre os tempos passados; e indique as distâncias temporais existentes entre os seus respectivos períodos historicos. Lembre-se: a separação entre fontes primárias e secundárias não é meramente metodológica ou bibliográfica, mas realmente histórica. Afinal, entre elas ocorreu uma sucessão factual marcada por transformações históricas e conquistas de novos horizontes temporais. Seja cuidadoso ao escrever com fontes de pesquisa de estatutos variados (imagens, relatos orais, discursos diplomáticos, obras filosóficas, pautas musicais etc.); e absolutamente escrupuloso ao lidar com fontes originárias de períodos históricos diversos. Em seu texto, assinale e explore todas essas diferenças.
8. Ao mencionar fatos ou estudos históricos consagrados e clássicos, seja rigorosamente preciso e faça as devidas referências às suas fontes de pesquisa. Em História não há espaço para alusões difusas ou generalistas. Portanto, ao invés de aludir vagamente à historiografia tradicional, ao berço do samba, às elites brasileiras, às representações culturais da modernidade, ou à linhagem das idéias platônicas..., use as notas de rodapé indicando com clareza e exatidão a qual conjunto de conceitos, autores, obras ou acontecimentos você está se referindo. Para indicar suas fontes de pesquisa com precisão, adote as regras estabelecidas pela ABNT.
9. Valorize o seu trabalho e não esconda os esforços de composição que você realizou durante a investigação. Nas notas de rodapé exponha os detalhes e os bastidores da pesquisa informando ao leitor quais procedimentos metodológicos utilizados; indique as obras que compõem os debates historiográficos em que a pesquisa se inscreve; dê referências bibliográficas para maiores informações sobre os pontos não totalmente explorados; refira-se à história das tradições intelectuais mobilizadas no texto; e, finalmente, dê referências completas às obras de consulta mais utilizadas e a todas as suas fontes primárias e secundárias. Também é elegante dar créditos a um colega, professor ou arquivista que de alguma forma não tangível contribuiu para o desenvolvimento de aspectos pontuais da sua pesquisa.
10. Em uma narrativa histórica, no corpo principal do texto, só existem dois tipos de personas: o historiador e os mortos — mas, atenção, somente os mortos de sua particular predileção. Com isso quero salientar o seguinte: 1º) A autoridade sobre o desenrolar do texto pertence exclusivamente ao historiador. E mesmo que tal auctoritas possa ser exercida de forma discreta ou saliente (isso depende de conveniências da pesquisa ou de preferências pessoais e estilo), é impossível suprimir a sua presença autoral. 2º) Consequentemente, o historiador não pode se ocultar atrás de excessivas e tediosas citações das fontes primárias supondo, simplesmente, que os mortos renascerão explicando o passado. 3º) E também não deve encharcar o corpo principal da narrativa com a presença proeminente de argumentos ipsis literis dos demais estudiosos que já investigaram o mesmo assunto. Salvo honrosas e necessárias exceções, todas as fontes secundárias devem ir para o seu devido lugar: as notas de rodapé.
11. Ao escrever, mantenha o foco da narrativa e evite o nhenhenhém das minúcias históricas. Não desperdice o tempo dos leitores; nem os aborreça com o preciosismo prolixo de informações e digressões ociosas.
12. Escreva com responsabilidade.
