Dicas simples para ENSINAR História
Rio de Janeiro, maio de 2007.
1. Ao narrar e analisar um acontecimento preciso (e não um processo de longa duração) defina logo quando aconteceu; onde aconteceu; quem foram os protagonistas; o que os antagonizou; quais eram os termos e ideais em querela; e, por fim, examine os resultados do episódio (“quem ganhou, quem perdeu” e as conseqüências imprevistas...). Tente apresentar um cenário de rivalidades — descrevendo as razões das partes em conflito —, mas não reduza o fato a uma simples batalha do bem contra o mal.
2. Ao explicar um processo de longa duração (a modernização, por exemplo) não sugira qualquer inexorabilidade causal entre os acontecimentos. Tente reunir uma boa constelação dos eventos que qualificaram o processo para que os estudantes percebam tratar-se de um conceito elaborado a posteriori e não de um dado factual. Seja cuidadoso e evite o jargão da transição (a transição da Monarquia para a Republica, a passagem do mithos para o logos, a transição do feudalismo para o capitalismo etc...). Se usados como esquemas explicativos, tais expressões sempre insinuam que as transformações históricas deram-se à revelia das ações humanas.
3. Abandone o determinismo. Tente apresentar os fatos passados como ocasiões abertas para várias possibilidades de ação. Como exercício, resgate as situações históricas e imagine os raciocínios ou cálculos dos protagonistas, identificando os dilemas e as soluções que, a partir dos seus horizontes temporais, se lhes apresentavam como possíveis.
4. Ao trabalhar com movimentos intelectuais (iluminismo) ou conceitos (proletariado), explique a etimologia dessas palavras e explore os seus campos semânticos. Ensine a usar dicionários ou enciclopédias e faça-os compreender que todas as palavras têm historicidade, mudam de significado e expressam idéias e valores diferentes ao longo dos tempos.
5. Deixe claro que há disputas interpretativas sobre os fatos históricos. Não é necessário recompor a história do debate historiográfico detalhadamente. Porém, é fundamental desnaturalizar as nossas interpretações mostrando que elas são frutos das atuais pesquisas — e podem vir a ser superadas, caírem em desuso, tornarem-se obsoletas etc. Não esconda que você também fez opções teóricas e intelectuais. Seja simples e, se necessário, explique as razões dos seus pontos de vista.
6. Leve as fontes primárias para a sala de aula. Use e abuse da literatura, das artes plásticas, das imagens de época, dos utensílios, das memórias, dos jornais etc. Se possível, também use música de época — é bom aprender cantando. O objetivo não é ilustrar a aula, mas exercitar a habilidade discente para ler e interpretar tais materiais de época.
7. Apresente os livros didáticos e os filmes exibidos em aula como expressões culturais pertencentes aos seus respectivos contextos históricos de origem. Não incentive a ingenuidade dos alunos, faça-os perceber que as interpretações sobre o mundo também fazem parte do mundo. E exatamente por isso elas não guardam a única verdade possível sobre as matérias estudadas. (Obviamente, isto é válido para todas as fontes, secundárias ou primárias.)
8. Lance mão dos mapas históricos e geográficos (caso não os tenha, desenhe o mapa no quadro para dar alguma idéia da localização). Junto com toda a turma, organize uma cronologia selecionada ou uma linha do tempo. Deixe-os vislumbrar antecipadamente as unidades da disciplina e o curso dos eventos históricos que serão estudados.
9. Se você não estiver ensinando no segundo segmento do Ensino Fundamental (quando ainda é importante concretizar e representar teatralmente as personagens da História), seja muito econômico ao usar o recurso didático que “presentifica” os tempos passados. Embora possa ser produtivo, já que os alunos tentam raciocinar como os protagonistas da História, isso também pode levar a anacronismos e dar a entender que as visões de mundo do presente são iguais às do passado.
10. Em sala de aula, use suas anotações. Despoje-se da vaidade e não queira fazer de conta que os seus talentos e saberes são dons geniais, extraordinários.
11. Aulas não são ocasião para proselitismo; nunca as transforme em púlpitos ou palanques. Por isso, ao invés de oferecer certezas, cultive a dúvida, provoque espanto e faça pensar.
12. Não tenha vergonha de dizer que não sabe. Mas pesquise o assunto e dê uma resposta satisfatória na aula seguinte. Mostre-se como aquilo que você é: um estudioso da História e não o Almanaque Capivarol.
13. Insista na explicação das lições. Com outras palavras e novos recursos sempre repita e fixe a interpretação que você ofereceu para os fatos históricos. O bom professor não sabe tudo, mas é capaz de dizer de várias maneiras aquilo que ele visa ensinar.
